Javier Marías | Assim começa o mal

Assim começa o mal

A Espanha também teve seus anos de chumbo, muito antes e mais duradouros que os nossos. Foi durante a ditadura franquista que muitos dos não ditos de Assim começa o mal se materializaram – feitos questionáveis do ponto de vista moral e cometidos por indivíduos de boa reputação que descansaram anonimamente no silêncio dos anos. Voltaram bem mais tarde para assombrar homens e mulheres ainda incapazes de compreender o que significa ser livre.

Cinco anós após a morte do general Franco, Juan de Vere, o jovem narrador, trabalha para Eduardo Muriel, cineasta espanhol de fama internacional a quem o protagonista admira em mal disfarçado segredo. É incumbido por ele de uma missão estranha às suas atividades profissionais: verificar a veracidade de um sórdido rumor a respeito de Jorge Van Vechten, amigo de longa data de Muriel. A causa leva o “jovem de Vere”, como é chamado, a viver com o cineasta e sua esposa, Beatriz Noguera, descrita como uma misteriosa figura; talvez erótica na mesma medida A trama ganha contornos de tragédia shakespeariana quando de Vere é testemunha perplexa da forma cruel como Muriel trata sua esposa.

A relação entre o casal e a trama de Jorge Van Vechten são dois eixos narrativos que em comum têm a imersão em desditas passadas ignoradas pelo presente. O excesso de conservadorismo dos anos ultracatólicos de Franco dá lugar a uma libertinagem tardia da qual todos parecem tomar parte, enquanto aceleram rumo a um futuro que abandona perigosamente o passado insondável. Jamais se cura o trauma nacional nem o individual, a ferida permanecendo aberta como um lembrete; a verdade, um visitante indesejado. Em suma, a história de Javier Marías faz jus ao título que empresta do bardo inglês, William Shakespeare, que há quatrocentos anos colocou na boca de seu Hamlet a frase “Assim começa o mal, e o pior fica para trás”.

Ao fim, Assim começa o mal é uma obra de rara sensibilidade que trata de temas complexos de forma pouco abstrata. A escrita sofisticada do autor exige algumas idas e vindas ao dicionário, mas é estranhamente acessível e envolvente em suas sutilezas. Como boa literatura, cabe ao leitor a tarefa de unir as pontas soltas e ir além do conteúdo manifesto.

Como bônus, as muitas referências ao cinema, atores e personagens da ficção fazem o gosto de qualquer cinéfilo que se preze, que pode contar ainda com as descrições verdadeiramente cinematográficas de Javier Marías.

Livro: Assim começa o mal
Autor: Javier Marías
Tradução: Eduardo Brandão
Editora: Companhia das Letras
Avaliação: ★★★★
Para quem: 
gosta de Shakespeare; curte ler com um dicionário ao lado; é fã de cinema.

O livro em um gif:

moleque computador

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